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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Menina de 11 anos deixa o pai para voltar a viver com irmãos e pais adotivos no DF



Da direita pra esquerda: os irmãos Maria Vitória, Pedro Henrique, Gabriel (embaixo), Vitor (de laranja, embaixo), Miguel (de azul, embaixo) e Ana Julia | Pedro Ladeira/Folhapress 
 
O reencontro com seus cinco irmãos -três crianças e dois adolescentes- arrancou um sorriso largo de Ana Julia Silva Santana, 11, em um abrigo na Cidade Ocidental, a 42 km de Brasília. Há quase dois anos, a menina foi separada dos demais após eles serem adotados por um casal que vive em São Paulo.
Ela chegou a ter sinais de depressão. "Eu estava muito triste porque vivia longe deles", diz. Com autorização judicial, Ana Julia foi morar com os irmãos, de 5 a 15 anos, no dia 26 de julho, em Ribeirão Pires, a 40 km de São Paulo, na mesma casa onde eles moram desde outubro de 2017.

Um ano depois, a adoção foi formalizada. Naquela época, a menina acabara de deixar o abrigo para morar com seu pai biológico, o operador de máquina Pedro Antônio Santana, 64. Ela é a única do grupo que tem o pai identificado.
Maus-tratos e abandono fizeram os seis filhos serem afastados da mãe biológica, não localizada pela reportagem. As denúncias começaram em 2015.
Desde que foram separados no Orfanato Rebecca Jenkins, Ana Julia mantinha apenas contato virtual com os irmãos.
"A gente, às vezes, se via por chamada de vídeo, mas era muito ruim porque sentia falta de brincar e dar um abraço", conta ela, depois de receber um abraço coletivo de Maria Vitória, Pedro Henrique, Miguel, Gabriel e Vitor, os irmãos por parte de mãe.
Os cinco irmãos de Ana Júlia voltaram para Cidade Ocidental com os pais adotivos, a gestora social Veranilda de Oliveira Guimarães, 51, e o aposentado Adalberto Franco Guimarães, 57, para o reencontro e retornarem com ela para Ribeirão Pires. "A melhor coisa é ter todos os irmãos da gente por perto. Sentia muita saudade de brincar com a minha irmã", diz Pedro, 12.
Segundo o pai biológico, Ana Julia ficava muito tempo fechada dentro do quarto, sozinha. "Longe dos irmãos, ela foi abatida por uma tristeza profunda, ficava arredia e não conseguia se alegrar de forma alguma", diz ele, que não tem contato com a mãe das crianças. "A única saída que encontrei foi deixá-la ir morar com os irmãos dela por parte de mãe, porque quero o melhor para ela. Dói demais ver triste um filho da gente."
O pai biológico assinou uma autorização judicial para a menina passar a morar com seus cinco irmãos em São Paulo, sob a guarda do casal. A intenção, diz ele, é que filha viva bem, mas sem romper o contato com seus familiares de Cidade Ocidental.
"Nossa família só aumentou. Espero que você seja muito feliz", disse o pai, antes de dar um abraço de despedida na filha e ouvir a promessa dela de não esquecê-lo.
Para a mãe adotiva, o gesto do operador de máquinas foi nobre. "Mesmo com as crianças morando conosco, não quero apagar o passado delas. Criaremos todas sabendo de onde vieram, e elas precisam saber que antes fizemos de tudo para que alguém da própria família biológica as pegasse para cuidar."
Segundo o juiz da comarca de Cidade Ocidental, André Nacagami, o caso mostra a viabilidade de novos modelos familiares. O Brasil tem 9.500 crianças e adolescentes na fila de adoção, segundo o cadastro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
"A adoção tem que ser trabalhada não como um direito de quem adota, mas como um direito de quem vai ser adotado", afirma Nacagami. "No caso de irmãos, a lei preconiza casais ou pessoas que queiram fazer adoção do grupo para que não o dividamos."

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